Trata-se de um exame realizado no mamógrafo digital com aquisição de imagens tomográficas milimétricas da mama, com o objetivo de reduzir as taxas de reconvocação para realização de imagens complementares e de aumentar as taxas de detecção de câncer de mama. Indicação especial para mamas densas.

Tomossíntese Mamária (DBT): A Evolução do Rastreamento
1. Princípios de Aquisição e Reconstrução
Diferente da mamografia digital convencional (que gera uma imagem de projeção 2D), a DBT realiza um arco de aquisição (geralmente entre 15° e 50°) obtendo múltiplas projeções de baixa dose.
- Reconstrução Iterativa: O computador utiliza algoritmos (como o Filtered Back Projection ou métodos iterativos) para reconstruir fatias de 1mm de espessura.
- C-View (Imagens Sintéticas): A maioria dos equipamentos atuais gera a “mamografia sintética” (2D reconstruída a partir dos dados da 3D). Isso reduz a dose de radiação total, evitando a necessidade de realizar um disparo 2D extra (o chamado combo-mode).
2. A Vantagem Clínica: O “Fator de Desmascaramento”
O ganho da tomossíntese é puramente geométrico:
- Aumento da Sensibilidade: Melhor detecção de pequenos nódulos e distorções arquiteturais que ficariam ocultas pelo parênquima denso na 2D.
- Aumento da Especificidade: Redução significativa na taxa de reconvocação (recall rate). Muitos achados que parecem nódulos ou distorções na 2D revelam-se tecido fibroglandular sobreposto ao navegar pelos cortes da 3D.
3. Semiótica na Tomossíntese: Como interpretar
A leitura da tomossíntese exige uma mudança de mindset:
- O “Sinal da Margem”: Ao navegar pelos cortes, observe a transição da lesão para o tecido adiposo. Margens espiculadas que se estendem através de múltiplos cortes são fortemente sugestivas de malignidade.
- O “Sinal do Centro”: Muitas distorções arquiteturais são visíveis apenas em um ou dois cortes centrais da lesão. Se o sinal de distorção desaparece rapidamente ao rolar os cortes, pode ser uma sobreposição benigna.
- Foco em Assimetrias: Toda assimetria focal identificada na 2D deve ser validada na 3D. Se a assimetria “desaparece” na 3D (mostrando-se apenas parênquima normal), ela pode ser categorizada como BIRADS 1 ou 2, poupando a paciente de ultrassonografia ou biópsias desnecessárias.
4. Limitações e Desafios (Onde ter cautela)
- Artefatos de Movimento: O arco de aquisição leva alguns segundos (mais tempo que a 2D). Movimentos da paciente criam artefatos de “borrão” (blurring) nos cortes, o que pode mimetizar ou obscurecer lesões.
- Artefatos de Calcificação: Pequenas calcificações podem ser visualizadas de forma fragmentada em múltiplos cortes, dificultando a análise de sua morfologia completa. Regra de ouro: Para análise precisa de calcificações, as incidências mamográficas 2D (magnificação) ainda permanecem superiores em muitos casos.
- Sobrecarga de Dados: Um exame de tomossíntese pode conter mais de 100 imagens por incidência. O tempo de leitura aumenta, exigindo estações de trabalho de alto desempenho e softwares de visualização eficientes.
5. Integração com IA
A tomossíntese é o campo mais fértil para a Inteligência Artificial. Algoritmos de Deep Learning são extremamente eficazes em detectar lesões em grandes volumes de fatias, servindo como uma “terceira leitura” que auxilia o radiologista a não ignorar pequenos nódulos em mamas densas.
Tabela: DBT vs. 2D – Onde a 3D ganha?
| Achado | Performance da Tomossíntese |
| Nódulos | Superior (melhor definição de margens). |
| Distorção Arquitetural | Muito superior (mais fácil de confirmar/descartar). |
| Microcalcificações | Equivalente ou levemente inferior (usar a 2D para refinar a morfologia). |
| Mamas Densas | O método de escolha (superior à 2D). |
Consideração Final
A Tomossíntese Mamária Digital (DBT – Digital Breast Tomosynthesis), frequentemente chamada de “mamografia 3D”, revolucionou o rastreamento mamário ao mitigar o principal limitador da mamografia 2D: o mascaramento tecidual por sobreposição. Para um especialista, entender a física da reconstrução e as nuances da interpretação de cortes é o divisor de águas entre um laudo convencional e um laudo de alta performance.
O maior erro cometido na transição para a tomossíntese é tentar interpretar o exame como se fosse uma série de mamografias 2D. O especialista deve desenvolver o hábito da “navegação”: percorrer os cortes de forma dinâmica, correlacionando a localização tridimensional da lesão entre a incidência craniocaudal (CC) e a mediolateral oblíqua (MLO). O segredo da excelência diagnóstica reside também na correlação sistemática entre os métodos.
