Trata-se de um exame fundamental para a detecção precoce do câncer de mama. É indicado como rastreamento para mulheres assintomáticas a partir dos 40 anos e como exame diagnóstico para mulheres com sinais e sintomas como nódulos palpáveis, secreção ou inversão de mamilo e retrações cutâneas.

Mamografia: Do Rastreamento ao Diagnóstico
1. Princípios Físicos
A mamografia é um exame de raios-X de baixa energia desenhado para criar imagens do interior das mamas. Os raios-X são como uma luz invisível que atravessa a mama, mas cada tecido deixa passar uma quantidade diferente de “luz”. A compressão da mama é fundamental para reduzir a espessura, minimizar a dose de radiação, reduzir o movimento e, crucialmente, diminuir a sobreposição de tecidos.
- gordura: mais transparente, por isso aparece mais escura.
- tecido glandular: é mais denso, bloqueando mais os raios e aparecendo mais branco.
- Calcificações: ainda mais denso ao raio X, aparece como pequenos pontos brancos e brilhantes.
- Tomossíntese Mamária Digital (DBT): Considerada o padrão-ouro atual. Adquire múltiplas projeções angulares para reconstrução de planos tomográficos, reduzindo drasticamente o efeito de mascaramento do tecido fibroglandular sobreposto.
2. BIRADS (Breast Imaging-Reporting and Data System)
O sistema ACR BIRADS é a linguagem universal, que através dos aspectos de imagem identificados, permite ao médico radiologista emitir um relatório, com uma descrição da lesão, o grau de suspeita para malignidade e uma recomendação de conduta.
| Categoria | Definição | Conduta |
| 0 | Avaliação incompleta | Avaliação adicional necessária (outros exames, exames anteriores) |
| 1 | Negativo | Rastreamento de rotina |
| 2 | Achado benigno | Rastreamento de rotina |
| 3 | Provavelmente benigno | Seguimento de curto prazo (6 meses) |
| 4 | Suspeito (A, B, C) | Biópsia recomendada |
| 5 | Altamente sugestivo de malignidade | Biópsia recomendada |
| 6 | Malignidade comprovada por biópsia | Tratamento específico |
Nota: Achados BI-RADS 1 e 2 têm probabilidade de malignidade de 1 em 10.000. Os achados BI-RADS 3 são provavelmente benignos, com uma probabilidade de malignidade inferior a 2%. As lesões BI-RADS 4 são subdivididas em 4A (baixa suspeita, >2-10% de malignidade), 4B (moderada, >10-50%) e 4C (alta suspeita, >50-95%). As lesões BIRADS 5 são altamente sugestivas de malignidade (acima de 95% de probabilidade).
3. Principais achados de imagem
A. Calcificações
- Benignas: tipicamente benignas são aquelas cutâneas, vasculares, grosseiras em nódulos calcificados.
- Suspeitas: Pleomórficas, amorfas, finas e lineares. A distribuição (difusa, agrupada, regional, linear, segmentar) é frequentemente mais importante que a morfologia isolada.
B. Assimetrias e Nódulos
- Nódulo: Lesão ocupante de espaço vista em duas incidências. Avaliar margens (circunscritas, indistintas, espiculadas) e densidade.
- Assimetria: Pode ser focal, global ou uma densidade em desenvolvimento (a mais suspeita, pois indica algo novo).
C. Distorção Arquitetural
Sem nódulo evidente, mas com ruptura dos planos teciduais. É um dos sinais radiológicos mais sensíveis para carcinoma invasor lobular ou ductal.
4. O Impacto da Densidade Mamária
Todas as mamas são constituídas por tecido fibroglandular e gordura, em maior ou menor proporção. Subdividimos as mamas em 4 tipos, desde a mais adiposa até a mais densa (com maior proporção de tecido fibroglandular). A classificação da densidade (A, B, C, D) não é apenas uma descrição, é um fator de risco independente para o câncer de mama e um determinante da sensibilidade do exame.
- Classificação: A (predominantemente adiposa, <25% de tecido fibroglandular), B (densidades fibroglandulares esparsas, 25-50% de tecido fibroglandular), C (heterogeneamente densa, 51-75% de tecido fibroglandular), D (extremamente densa, >75% de tecido fibroglandular).
- Em mamas do tipo C (heterogeneamente densas) e D (extremamente densas), a mamografia isolada perde sensibilidade (até 50% de falsos negativos).
- Conduta: Em pacientes de alto risco com mamas densas, o uso de ecografia complementar ou Ressonância Magnética é mandatório.
5. Inteligência Artificial (IA) na Radiologia Mamária
Estamos na era da assistência por IA.
- Sistemas CADe (Computer-Aided Detection): Auxiliam na detecção de lesões (redução de erros perceptivos).
- Sistemas CADx (Computer-Aided Diagnosis): Auxiliam na caracterização e estratificação de risco (redução de falsos positivos/biópsias desnecessárias).
- O papel do médico: A IA atua como uma “segunda leitura” otimizada, mas a decisão final e a correlação clínica permanecem como responsabilidade do especialista.
6. Desafios Contemporâneos e Futuro
- Rastreamento Personalizado: Atualmente estamos passando por uma transição do rastreamento universal (idade/intervalo fixo,igual para todas as mulheres) para o rastreamento baseado em risco individual (histórico familiar, mutações genéticas como BRCA1/2, história prévia de irradiação torácica, biópsias prévias).
- Contrast-Enhanced Mammography (CEM): Uma tecnologia emergente que utiliza contraste iodado intravenoso para avaliar a neovascularização tumoral, mostrando potencial competitivo com a RM em pacientes claustrofóbicas ou com contraindicações à RM.
Consideração Final
A mamografia é o método de rastreamento de câncer de mama mais eficaz e mais barato de forma isolada. No entanto, o conhecimento clínico (palpação, história familiar, uso de terapia hormonal, cirurgias prévias) e a correlação com métodos complementares (ecografia e ressonância) são o que definem a excelência na imaginologia mamária. Todas estas variáveis são como peças de um quebra-cabeças que o radiologista deve encaixar com precisão para chegar ao diagnóstico. Mas o objetivo não é apenas encontrar o câncer, e sim diagnosticar o mais precocemente possível, possibilitando tratamentos menos agressivos, com menor impacto na qualidade de vida das pacientes e com maiores chances de cura e maior sobrevida livre de doença.
